Uma lembrança agradecida das minhas raízes

foto: Frei Edson, OFM ( Comunicação custodial )
Conservo no meu coração franciscano uma lembrança agradecida das minhas raízes.
Sempre pedi a Deus que nunca me deixasse esquecer de onde vim. Que, por mais longe que meus passos me levassem, por maiores que fossem as responsabilidades e por mais exigente que se tornasse a minha missão, eu nunca perdesse a memória do chão onde minhas raízes começaram a crescer.
Gosto de pensar que existe um chão dentro de cada pessoa. Um chão feito de lembranças, de pessoas, de felicidades, de lutas e de pequenos gestos que nos ensinaram a viver. É o chão do nosso barro, onde a vida foi tomando forma e onde Deus, silenciosamente, começou a escrever a nossa história.
Voltar a esse chão, para mim, é uma maneira de rezar e de refazer-me. É fazer silêncio diante de Deus e reconhecer, com humildade, que não cheguei até aqui sozinho. Houve mãos que me ampararam, pessoas que acreditaram em mim, caminhos que se abriram e também dificuldades que me ensinaram a depender sempre mais da graça do Senhor.
Quando olho para trás, não quero enxergar apenas aquilo que consegui realizar. Quero reconhecer, sobretudo, aquilo que Deus realizou em mim e através de mim. Quero recordar os meus começos sem a vergonha de ser simples. Quero recordar também todas as lutas que enfrentei e agradecer por tudo o que a vida me ensinou. Afinal, a nossa história, com suas alegrias e feridas, também pode se tornar lugar de encontro com Deus. Eu bem sei.
O Seráfico Pai São Francisco de Assis me ensinou que a verdadeira grandeza está em saber-se pequeno diante do Senhor. Esta lição eu humildemente aprendi. O Pobrezinho de Assis não encontrou a sua alegria em ser importante, mas em pertencer inteiramente a Deus. Foi despojando-se das seguranças, das vaidades e da necessidade de ser reconhecido que descobriu a liberdade de um coração verdadeiramente fraterno.
É isso que eu também preciso continuar aprendendo todos os dias. Não quero permitir que aquilo que faço seja maior do que aquilo que sou. Não quero deixar que as responsabilidades me afastem da simplicidade, nem me acostumar tanto com as coisas a ponto de me esquecer do próprio Deus.
Quero continuar sendo alguém que se alegra com as coisas pequenas, que encontra beleza numa conversa sincera, que agradece por uma amizade verdadeira e que não precisa de muito para reconhecer a bondade do Senhor. Quero conservar meu coração franciscano sendo capaz de se comover, de pedir perdão, de recomeçar e de se alegrar com a felicidade dos outros.
Sempre pedi a Deus que não me deixasse esquecer de onde vim. E também lhe pedi que nunca me deixasse esquecer que sou feliz.
Não de uma felicidade sem dificuldades, nem daquela que depende de tudo acontecer como eu desejava. Falo da felicidade simples de quem sabe que é amado por Deus, de quem encontra sentido no serviço, de quem pode deitar a cabeça no travesseiro com a consciência tranquila e agradecer pelo dom da vida e pela missão realizada com toda retidão e humildade.
Sendo assim, ser feliz, para mim, é reconhecer que, apesar das lutas, das decepções e do cansaço, ainda há no meu coração franciscano muita bondade para ser espalhada pelo caminho por onde eu andar. É poder perceber que a graça de Deus continua me sustentando e que não preciso ter tudo nas mãos para confiar naquele que me conduz, me protege e me ama.
Voltar ao chão do meu barro é, portanto, voltar à humildade. É recordar que sou criatura, que a vida é dom e que tudo aquilo que recebi deve se transformar em serviço. É compreender que nenhuma missão me torna maior do que ninguém e que o hábito franciscano que visto só tem sentido quando me ajuda a viver mais perto de Nosso Senhor Jesus Cristo, pobre, humilde e servidor.
Não quero carregar durante a caminhada os títulos conquistados e esquecer-me dos rostos amigos. Não quero ter aprendido tantas coisas e perdido a capacidade de me maravilhar com o essencial. Não quero apenas falar tanto de fraternidade, mas quero vivê-la: sentar-me à mesa com simplicidade, escutar com paciência e acolher o outro como ele é.
Quero permanecer fiel ao Santo Evangelho nas pequenas coisas, porque é nelas que a minha vocação franciscana ganha verdade e é testemunhada. Quero continuar aprendendo a ser irmão, a cuidar da vida, a respeitar a história de cada pessoa e a reconhecer que todos nós somos feitos do mesmo barro e sustentados pela mesma misericórdia.
E, quando o tempo passar, quando a missão mudar e as responsabilidades ficarem para trás, desejo que permaneça em mim um coração franciscano sempre agradecido e feliz. Um coração franciscano que não se esqueceu de suas raízes, que não perdeu a alegria de servir e que ainda sabe encontrar Deus no silêncio, na simplicidade e no encontro com os pequenos.
Quero, então, concluir este humilde texto fazendo a Deus uma sincera oração:
Meu Deus, não me deixes esquecer o chão do meu barro.
Quando eu me sentir importante demais, ensina-me novamente a ser pequeno. Quando o peso das responsabilidades me cansar, devolve-me a alegria das coisas simples. Quando as dificuldades me fizerem esquecer as tuas graças, ajuda-me a recordar quantas vezes tua mão me sustentou.
E, quando meus passos me levarem para longe das minhas origens, conserva perto de mim a memória daquilo que me fez crescer.
Que eu nunca perca a simplicidade ensinada pelo Seráfico Pai São Francisco de Assis, a gratidão de quem reconhece tudo como dom e a liberdade de quem não precisa ser maior do que ninguém para ser feliz.
Porque, no fundo, é isso que desejo: continuar caminhando sem me afastar de Ti, servir sem perder a simplicidade e continuar a crescer sem esquecer as minhas raízes. Que, com meu coração franciscano cheio de amor e paz, eu possa continuar caminhando e fazendo sempre e somente o bem. Amém.
Franciscanamente,
Frei Rogério Viterbo de Sousa, OFM
Campo Grande-MS, 30 de outubro de 2026