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Notícias › 28/05/2026

Leão XIV: a era hipermidiática gera pobreza espiritual

Em discurso aos participantes da plenária do Dicastério para a Evangelização na manhã desta quinta-feira (28/05), o Papa constata a “indiferença religiosa generalizada” do Ocidente, que delega à “cultura tecnológica” as respostas às questões não resolvidas da vida. Leão XIV exorta a dirigir-se às novas gerações sem depender de relevância social ou consenso momentâneo.

Edoardo Giribaldi – Vatican News

Resolver a “crise da fé” atual pareceria fácil, confiando à “cultura tecnológica, que deveria responder a todas as necessidades”, às grandes questões existenciais do homem. No entanto, a aridez do espírito não parece se acalmar quando inundada pelas ofertas das “sociedades hipermidiáticas e consumistas”, que acabam diluindo o Evangelho, reduzindo-o a “uma opinião entre tantas” em vez de apontá-lo como “o caminho que dá sentido à vida”. Para reverter essa apatia, é errado confiar no consenso ou na relevância social do momento; é necessário, ao contrário, ir ao encontro dos crentes de amanhã: aqueles que, ao descobrirem “o segredo para serem verdadeiramente felizes”, acolhem o Evangelho sem preconceitos e nunca mais o abandonam. O Papa Leão XIV analisa as problemáticas, mas também oferece soluções, ao se encontrar na manhã desta quinta-feira (28/05) com os participantes da plenária do Dicastério para a Evangelização – Seção de Questões Fundamentais da Evangelização no Mundo. No encontro na Sala do Consistório do Palácio Apostólico Vaticano estava inclusive o cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo.

Leia aqui a íntegra do discurso do Papa Leão XIV

Continuar a anunciar a esperança

A primeira parte do discurso foi dedicada ao passado recente e ao “grande trabalho” realizado pelo Dicastério durante o Jubileu da Esperança. Um “esforço organizacional” que se transformou em uma “acolhida feliz” para os numerosos peregrinos – “Qual foi o número final, quantos eram?”, pergunta o Papa de improviso, recebendo como resposta o dado: mais de 33 milhões – que chegaram em Roma, com especial atenção à “dimensão espiritual” que caracterizou todo o Ano Santo. A esperança, proclamada várias vezes ao longo de 2025, é indicada pelo Pontífice como a “irmã mais nova” das virtudes, mas também aquela de que o mundo tem “mais sede do que nunca” e que, silenciosamente, sustenta as outras duas maiores: fé e caridade.

“Não interrompamos, portanto, este anúncio, sustentado pela promessa do Senhor Jesus de permanecer sempre conosco; ele se torna visível no testemunho que somos chamados a oferecer para sermos discípulos fiéis à sua palavra.”

O Papa com o arcebispo Rino Fisichella, pro-prefeito do Dicastério para a Evangelização, responsável pela organização do Jubileu 2025   (@VATICAN MEDIA)

Não subestimar a “crise da fé”

A evangelização, afirma então o Papa, representa o requisito fundamental de toda ação da Igreja e das comunidades locais. Somente assim a Igreja pode se redescobrir sempre nova “na sua beleza” e expressar plenamente a sua credibilidade, oferecendo uma esperança que não é uma “proposta utópica”, mas um testemunho concreto do chamado “ao amor e à verdade”.

“Não podemos subestimar o fato de que, sobretudo nos países do Ocidente, a crise da fé, junto a outros fatores socioculturais, deu origem a uma indiferença religiosa generalizada. Para muitos, a fé parece não ter mais relevância para a própria vida. O perigo subjacente, cuja gravidade nem sempre é percebida, é que se perca o fôlego para o que há de mais propriamente humano, ou seja, a busca pelo sentido. As grandes questões existenciais permanecem sem resposta, enquanto se alastra uma cultura tecnológica que deveria atender a todas as necessidades.”

Evangelii gaudium como bússola

Encontrar Jesus significa, ao contrário, dar plenitude “de significado e valor” à própria existência, ressaltou Leão XIV, lembrando que ninguém pode substituir a Igreja nessa tarefa fundamental, chamada a oferecer “alicerces confiáveis para o futuro da humanidade”. Para lançá-los, o bispo de Roma convida a utilizar como bússola a Exortação Apostólica Evangelii gaudium do Papa Francisco que, como afirmado em uma carta aos cardeais de abril de 2026, representa “um ponto de referência decisivo”, na medida em que “não introduz simplesmente novos conteúdos, mas recentra tudo no kerigma”, isto é, no anúncio evangélico, “como coração da identidade cristã e eclesial”.

“Convido, portanto, também vocês a retomarem a Evangelii gaudium em seu trabalho em todos os níveis, para promover uma missão cristocêntrica e kerigmática, que nasce de um encontro com Cristo capaz de transformar a vida.”

As buscas espirituais dos jovens

Na evangelização, prossegue Leão XIV, surge hoje uma “forte busca por espiritualidade” por parte dos jovens, que se manifestou com particular evidência durante o Jubileu dedicado a eles:

“A nova geração não tem preconceitos em relação ao Evangelho; pelo contrário, muitos, ao redescobri-lo, desejam conhecê-lo melhor, pois percebem que nele se esconde o segredo para serem verdadeiramente felizes.”

Uma mensagem que deve ser anunciada confiando sobretudo à “orientação do Espírito Santo”, mais do que à “eficiência das estruturas”, à “relevância social” ou ao “consenso que se pode obter em algum momento”.

Leão XIV com uma cópia da Encíclica “Magnifica humanitas”   (@VATICAN MEDIA)

Os problemas da sociedade hipermidiática

Levar a mensagem de Jesus ao mundo, observa ainda o Papa, significa hoje se confrontar com dinâmicas profundamente alteradas em relação às gerações passadas, a ponto de se interromper a própria transmissão da fé em algumas regiões do mundo:

“As causas dessa situação são conhecidas e múltiplas; o que resulta disso, porém, nas jovens gerações, é uma ‘pobreza’ espiritual, uma carência de motivações e de instrumentos para poder amadurecer em plena liberdade aquela adesão à fé que dá sentido à vida.”

Para contrariar essa deriva, há as “numerosas e variadas” expressões da vida da comunidade cristã, que escutam e dialogam com as novas gerações, afirma o Papa:

“O clima cultural predominante nas sociedades hipermidiáticas e consumistas reduz a capacidade de aprender com paciência e de trilhar, com esforço, um caminho de busca pessoal da verdade, com perseverança e senso crítico. Toda mensagem corre o risco de ser percebida como apenas mais uma opinião entre tantas.”

Homens tocados por Deus

A fé, portanto, transmite-se antes de tudo através do encontro, da alegria vivida e da coerência com o Evangelho, reforça Leão XIV:

“Certamente não é diluindo os conteúdos e suavizando as exigências que se pode tornar o cristianismo atraente, mas testemunhando com humildade e coragem ‘o caminho, a verdade e a vida’ que converteu e santificou tantas pessoas.”

A esse respeito, Leão XIV cita Bento XVI: “o que precisamos neste momento da história são homens que, por meio de uma fé iluminada e vivida, tornem Deus credível neste mundo”. O Papa Ratzinger já destacava a necessidade de homens “que sejam tocados por Deus”, para que Ele possa “retornar aos homens”:

“A santidade da vida, portanto, permanece sempre a forma mais convincente da beleza da fé cristã que transcende os tempos e se propõe a todas as culturas.”

O Papa ao saudar os participantes da plenária do Dicastério para a Evangelização   (@VATICAN MEDIA)

O acompanhamento aos catecúmenos e crismandos

No final do discurso, o Bispo de Roma se detém à catequese, convidando a uma atenção especial aos catecúmenos, cujo acompanhamento não pode se esgotar com a celebração do Sacramento, mas deve prosseguir, oferecendo-lhes “um ambiente no qual encontrem resposta às expectativas que os levaram a aderir a Cristo e à sua Igreja”. O mesmo cuidado, conclui o Papa, deve ser reservado também aos crismandos, tornando as propostas dirigidas a eles “verdadeiramente eficazes” graças a uma atenção pessoal a cada um, reflexo do “amor único e pessoal do Senhor”.

 

fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-05/papa-leao-xiv-audiencia-dicasterio-para-a-evangelizacao-maio-26.html

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