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Notícias › 13/06/2026

Reflexão para 11º Domingo do Tempo Comum

No 11º Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos revela que a missão não começa com um plano, mas com um olhar que se comove.

Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. – Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

A liturgia deste domingo tem um fio condutor que atravessa todas as leituras com uma força impressionante: Deus nos chama, nos constitui como povo e nos envia. Não somos uma comunidade que existe para si mesma. Somos um povo que foi reunido para ser enviado. E esse envio começa sempre de um lugar muito específico: o coração de Jesus que se comove diante das multidões.

A liturgia tem algo urgente a dizer para a nossa vida aqui no Rio de Janeiro, nesta cidade que é, ao mesmo tempo, uma das mais belas e uma das mais feridas do Brasil.

O Êxodo nos traz uma imagem que deveria nos parar (Ex 19,2-6a). Deus fala a Moisés no alto do Sinai e diz: “Vistes o que fiz aos egípcios, e como vos levei sobre asas de águia e vos trouxe a mim” (Ex 19,4). Asas de águia. Não nas costas de um escravo. Não arrastados pelo deserto com esforço próprio. Carregados. Sustentados por baixo, como a águia que carrega seus filhotes quando eles ainda não sabem voar.

Quantas pessoas no Rio de Janeiro vivem com a sensação de que estão sendo arrastadas, e não carregadas? Que o peso é delas, e só delas? Que ninguém está embaixo, sustentando? A Palavra de Deus diz o contrário. Diz que antes de qualquer aliança, antes de qualquer mandamento, antes de qualquer exigência, Deus já agiu. Já carregou. Já trouxe a si.

E depois dessa lembrança, vem o convite: “se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim a porção escolhida dentre todos os povos” (Ex 19,5). Reparem na ordem. Primeiro o gesto de amor. Depois o chamado à resposta. Deus não começa pelas exigências. Começa pela memória do que já fez. E é dessa memória que nasce a fidelidade.

Mas há mais. Deus diz: “vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). Um reino de sacerdotes. Não apenas os levitas. Não apenas os ordenados. Todo o povo. Cada pessoa que pertence a esse povo tem uma vocação sacerdotal, uma missão de mediação, de presença, de santidade no meio do mundo. Isso vale para o trabalhador da construção civil para a professora, para o jovem que ainda não sabe o quanto vale. Todos são chamados a ser sacerdotes vivos nesta cidade.

São Paulo escreve aos Romanos com uma lógica que inverte tudo o que o mundo nos ensina sobre relacionamentos (Rm 5,6-11). “Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios” (Rm 5,6). Não pelos bons. Não pelos que mereciam. Pelos ímpios. Pelos fracos. Pelos que estavam do lado errado.

E Paulo vai ainda mais fundo: “quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho” (Rm 5,10). Inimigos. Essa palavra pesa. Não éramos apenas indiferentes. Éramos hostis. E mesmo assim, Cristo veio. Mesmo assim, o amor foi maior do que a hostilidade.

Por que isso importa para nós hoje? Porque vivemos numa cidade onde o ciclo da violência muitas vezes se alimenta da lógica do “olho por olho”. Onde a reconciliação parece ingenuidade. Onde perdoar é visto como fraqueza. E Paulo nos diz que a lógica de Deus é exatamente oposta: a reconciliação foi iniciada por quem tinha mais razão para não se reconciliar. Por quem tinha sido ofendido, rejeitado, ignorado. E mesmo assim veio ao encontro.

Essa não é apenas uma verdade teológica. É um programa de vida para cada batizado nesta cidade. A reconciliação que recebemos de graça precisa circular. Paulo diz que “já desde o tempo presente, recebemos a reconciliação” (Rm 5,11). Não no futuro. Agora. Já estamos reconciliados. Já estamos do lado de dentro. E isso nos torna capazes, pelo Espírito, de ser instrumentos dessa mesma reconciliação no mundo ao nosso redor.

Chegamos ao Evangelho – Mt 9,36-10,8 –, e aqui está a cena que é o coração de toda a liturgia deste domingo. “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,36).

Jesus viu. E ao ver, se compadeceu. Em grego, o verbo usado é “esplagchnísthe”, que vem de “entranhas”. Não é uma emoção superficial. É uma comoção que vem de dentro, que mexe com o centro da pessoa. Jesus não ficou distante analisando a situação das multidões. Foi atingido por elas. Deixou que a realidade delas chegasse até ele.

Quantas vezes passamos pelas multidões da nossa cidade sem sermos atingidos? O metrô lotado, a fila do hospital, o semáforo onde um menino pede esmola. Vemos, mas não somos comovidos. Jesus nos ensina que a missão começa com um olhar diferente. Um olhar que não categoriza, não julga, não se defende. Um olhar que se deixa tocar.

E desse olhar comovido nasce uma constatação e um pedido. A constatação: “a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Mt 9,37). O pedido: “pedi ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita” (Mt 9,38). Reparem que antes de enviar os discípulos, Jesus os manda orar. Antes de agir, rezar. Antes de ir, pedir. A missão que não nasce da oração cansa depressa e perde o rumo.

Só depois de ensinar a orar, Jesus chama os Doze e os envia. E o envio vem carregado de poder: “deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” (Mt 10,1). Não os enviou de mãos vazias. Não os mandou confiar apenas no próprio esforço. Deu-lhes o que precisavam para a missão. Porque a missão é dele, e ele equipa quem chama.

Mateus faz questão de listar os nomes dos doze apóstolos. E é uma lista que vale a pena contemplar alguns. Simão Pedro, o impulsivo que negou três vezes. André, o irmão que ficou na sombra. Mateus, o cobrador de impostos, o colaborador do sistema de opressão romano. Simão, o Zelota, o militante que queria derrubar esse mesmo sistema. Judas, que trairia. Tomé, que duvidaria.

Não é uma lista de santos prontos. É uma lista de gente comum, contraditória, com histórias e feridas diferentes. E Jesus os chama a todos. Pelo nome. E os envia juntos. Não separados por ideologia ou por passado. Juntos. Porque a missão do Reino não cabe num partido, nem numa corrente de pensamento. Ela precisa da diversidade do povo de Deus.

Aqui no Rio de Janeiro, nossa Arquidiocese é exatamente isso. Um povo diverso, vindo de todos os cantos, com histórias que se misturam nas paróquias, nas pequenas comunidades, nos movimentos, nos círculos bíblicos, nas pastorais. E Jesus nos envia juntos. Com a mesma instrução que deu aos Doze: “de graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8).

Essa frase é um critério de discernimento para toda a missão cristã. Tudo o que recebemos, recebemos de graça. A fé, a reconciliação, o Espírito, a comunidade. Nada foi mérito nosso. E por isso, tudo o que damos deve ser dado sem calcular o retorno, sem cobrar a conta, sem condicionar o amor ao comportamento do outro. A gratuidade é a marca do discípulo.

Este domingo nos envia. A liturgia não nos deixa sentados. Ela nos coloca de pé, olhando para a messe grande que é esta cidade, e nos pergunta: você está disposto a ser trabalhador? Não herói. Não especialista. Trabalhador! Alguém que vai ao campo, que coloca as mãos na terra, que faz o que precisa ser feito, com humildade e perseverança.

O Rio de Janeiro precisa continuar sendo uma Igreja que vai. Que sai das sacristias e entra nas favelas. Que deixa os bancos das capelas e vai às camas dos hospitais. Que não espera as pessoas chegarem, mas vai ao encontro das “ovelhas perdidas” (Mt 10,6), dos cansados, dos abatidos, dos que ainda não sabem que foram carregados em asas de águia por um Deus que os amou antes de eles saberem seu próprio nome.

Somos um reino de sacerdotes. Fomos reconciliados quando éramos inimigos. Recebemos de graça. Vamos dar de graça.

Rezemos para que o Senhor da messe nos envie cada vez mais como trabalhadores cheios de compaixão, de coragem e de alegria nesta cidade que tanto amamos. “Para que todos sejam um” (Jo 17,21).

fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-06/reflexao-domingo-tempo-comum.html

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