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Artigos › 13/10/2026

O que Francisco de Assis pode nos ensinar sobre a morte?

Imagem gerada por IA.

Fábio José Garcia Paes

Narrativa reflexiva solta de um franciscano intrigado:

“Deixem-me nu sobre a terra nua.” É difícil imaginar uma frase mais desconcertante para os últimos instantes de uma vida. Francisco de Assis, que passou boa parte da existência despojando-se das riquezas, das honras e das convenções de seu tempo, queria também morrer despojado. Sem nada que pudesse esconder aquilo que todos nós tentamos esconder durante a vida inteira: somos corpo, somos matéria, somos frágeis e, no fim, pertencemos à terra.

Há algo de teatral, quase provocador, na morte de Francisco. Até o fim ele parece construir uma espécie de cena que contraria os códigos de uma sociedade medieval profundamente marcada pela riqueza, pela hierarquia e pelo medo. Não bastava morrer: era preciso transformar a própria morte em testemunho. No leito, recorda a última estrofe do Cântico das Criaturas e chama a morte de irmã. Pede perdão ao próprio corpo pelos jejuns, pelas penitências e pelos sacrifícios a que o submetera. Quer que chamem Jacoba, sua amiga, a mulher que fazia os biscoitos de que tanto gostava e os levava para ele. Para despistar os olhos e a opinião mesquinha, machista e conservadora de seu tempo, chamava-a de “frei”. Jacoba não era freira, religiosa nem nada do gênero.

Pede também que não transformem sua morte numa procissão interminável. Dizia: “Não sou santo, posso ainda casar e ter filhos”. Há algo de profundamente intrigante nessa cena: mesmo diante do fim, Francisco conserva a mesma liberdade que marcou sua vida. Recusa os protocolos e as solenidades que poderiam transformar sua morte em espetáculo, como se soubesse que sua própria popularidade já era, por si só, uma espécie de espetáculo.

Mas talvez o mais extraordinário seja justamente o modo como ele olha para a morte. Francisco não a transforma em inimiga absoluta, nem tenta escondê-la atrás de uma linguagem triunfalista. Chama-a de irmã. Não porque a morte seja boa, mas porque ela pertence à condição de criatura, é imprescindível. Aquele que passou a vida procurando uma fraternidade que ultrapassasse as fronteiras humanas termina incluindo a própria morte nessa fraternidade.

Para compreender isso, é preciso voltar ao início de sua transformação. Francisco não nasceu indiferente à riqueza, à guerra ou ao prestígio. Era filho de comerciante, jovem inserido nas ambições de sua classe e de seu tempo. Participou da guerra como soldado, foi capturado, conheceu a prisão e adoeceu. A experiência da violência e da fragilidade do corpo abriu uma fissura naquele mundo de sonhos burgueses. De repente, aquilo que parecia sólido revelou-se amargamente precário. A guerra lhe mostrou que o corpo humano pode ser reduzido à condição de prisioneiro, ferido ou cadáver; a doença mostrou que a própria existência pode escapar das mãos; o fracasso dos antigos projetos abriu espaço para uma pergunta que talvez seja uma das mais difíceis que alguém pode fazer: afinal, o que vale a pena buscar quando tudo aquilo que parecia garantir uma vida segura pode desaparecer?

A conversão de Francisco nasce também desse choque com a mortalidade. E talvez seja por isso que o encontro com os leprosos tenha sido tão decisivo. O leproso não era apenas alguém doente. Era a encarnação de tudo aquilo que uma sociedade queria manter distante: a decomposição, a doença, o mau cheiro, a deformidade, a vulnerabilidade, a proximidade do fim. O próprio Francisco sentia repulsa. E justamente aí está a força do gesto. Ele não beija o leproso porque tenha deixado de sentir horror; aproxima-se apesar do horror. O beijo interrompe a lógica da exclusão. O homem que todos evitavam deixa de ser ameaça e volta a ser pessoa. A mortalidade e finitude como elemento de conversão do Poverello de Assis.

Talvez seja esse o verdadeiro escândalo de Francisco: ele não espiritualiza a miséria para poder suportá-la à distância. Ele se aproxima. Coloca o corpo em contato com aquilo que a sociedade preferia manter fora de vista. A sua espiritualidade começa a ganhar uma forma concreta: tocar o intocável, escutar o invisível, aproximar-se do que provoca medo.

É possível imaginar também o quanto a realidade das periferias medievais também tenha contribuído para essa transformação, a partir das experiências de “mortes” que encontrou. Nas estradas, nos campos e nas regiões afastadas dos centros de poder estavam os corpos que dificilmente apareciam nos discursos dos poderosos e Eclesiais ou do Estado: crianças que morriam cedo, mulheres que morriam no parto, camponeses submetidos à fome, doentes sem recursos, idosos abandonados, pessoas expulsas para fora dos muros feudais. Para Francisco, a morte não era uma abstração filosófica. Ela tinha rosto. Tinha cheiro. Tinha corpo. Tinha História.

As Cruzadas talvez sejam um dos exemplos históricos mais brutais de como a religião, o poder e a guerra puderam se unir diante do absurdo da morte. Francisco viveu esse cenário de perto. Em 1219, chegou ao Egito durante a Quinta Cruzada e encontrou um mundo em que homens matavam e morriam em nome da fé. Seu encontro com o sultão al-Malik al-Kamil, em meio à guerra, ganha assim um significado particular: diante da morte que a guerra produzia, Francisco procurou o encontro, não a destruição. Aquele que aprenderia a chamar a morte de irmã esteve também diante de uma história em que a morte podia ser transformada em instrumento de poder e de fé.

Por isso, a experiência de meditação e isolamento de Francisco nas matas e montanhas também tenha sido tão importante. Longe da agitação das cidades e das pessoas, a natureza oferece uma pedagogia que não precisa de palavras, que fala pelo silêncio: tudo nasce, cresce, envelhece, morre e retorna. A árvore não faz um discurso sobre a finitude; simplesmente perde suas folhas. O animal não precisa de uma teologia da mortalidade ou metafisicamente da eternidade; envelhece. O dia termina sem pedir licença. A água corre. O corpo cansa. A terra recebe aquilo que um dia dela brotou com jovialidade. Francisco parece ter compreendido que a morte não é uma falha da criação. Ela é parte da condição de toda criatura num círculo de amorosidade que se entrega sem saber o “porquê”.

E talvez seja justamente aí que Francisco se torne atual. Nós fizemos algo curioso com a morte: conseguimos cercá-la de tecnologia e, ao mesmo tempo, expulsá-la da consciência. Temos hospitais sofisticados, medicamentos, cirurgias, máquinas capazes de prolongar a existência e conhecimentos médicos extraordinários. Mas continuamos com enorme dificuldade de olhar para a morte. Ela foi empurrada para os hospitais, para as instituições, para os velórios cada vez mais rápidos, para os números das estatísticas. A morte continua acontecendo, mas frequentemente acontece longe de nós.

E quando não conseguimos olhar para a morte, talvez também tenhamos dificuldade de olhar para a vida. Vivemos cercados de imagens de sofrimento e, paradoxalmente, cada vez mais protegidos da experiência do sofrimento. Uma criança morre de fome e logo aparece outro vídeo. Uma cidade é destruída por uma guerra e imediatamente somos convidados a assistir a outra coisa. Um hospital entra em colapso, uma população fica sem atendimento, famílias perdem suas casas, pessoas desaparecem, e a informação se transforma rapidamente em mais uma peça do fluxo interminável de conteúdo.

O problema não é a distração, as vezes, precisamos dela. O problema é quando a distração se transforma em anestesia, quando já não conseguimos permanecer diante de uma dor por tempo suficiente para que ela nos incomode. Talvez uma das maiores doenças espirituais do nosso tempo seja justamente essa incapacidade de permanecer. Vemos, passamos adiante, esquecemos. O sofrimento precisa ser rápido porque a nossa atenção não pode parar. A tragédia precisa caber em poucos segundos. O morto precisa virar número. O refugiado precisa virar estatística. A guerra precisa caber numa manchete. A fome precisa ser uma imagem que desaparece com o próximo movimento do dedo.

Francisco parece nos perguntar: o que acontece com uma sociedade que consegue ver tudo e, ainda assim, não consegue enxergar ninguém?

Essa pergunta se torna brutal quando olhamos para as guerras contemporâneas. Nunca tivemos tanta capacidade de acompanhar conflitos à distância. Podemos ver cidades destruídas, famílias fugindo, hospitais atingidos, crianças feridas e pessoas enterrando seus mortos. A tecnologia aproximou a imagem, mas não necessariamente aproximou o coração. A repetição pode produzir uma espécie de habituação: aquilo que no primeiro dia nos chocava, depois de meses passa a ocupar o mesmo espaço mental de qualquer outra notícia. O cadáver perde o nome, a família perde a história, a cidade perde a singularidade e tudo vira número.

Há algo ainda mais perturbador: algumas mortes recebem enorme atenção enquanto outras quase desaparecem. Não se trata apenas da quantidade de mortos, mas de visibilidade. Há vidas que conseguem mobilizar indignação, luto e solidariedade; outras parecem destinadas ao silêncio. A pergunta franciscana poderia ser radicalmente simples: por que algumas pessoas são tão facilmente transformadas em descartáveis?

Essa questão também aparece quando pensamos nas mortes provocadas ou agravadas pela pobreza, pela falta de acesso à saúde, pela fome, pela violência e pela exclusão. Nem toda morte é evitável, e seria absurdo imaginar que todas possam ser explicadas por uma única causa. Mas existem mortes que não podem ser tratadas simplesmente como destino. Existem mortes relacionadas às condições concretas em que determinadas pessoas são obrigadas a viver. E quando uma sociedade sabe que determinadas populações estão mais expostas ao sofrimento e ainda assim naturaliza essa exposição, a morte deixa de ser apenas um acontecimento biológico e se transforma também em uma questão ética.

Francisco pode nos ensinar a desconfiar daquilo que chamamos de “normal”. Normal que haja pobres, normal que existam pessoas sem acesso digno à saúde, normal que crianças morram de doenças evitáveis, normal que determinadas populações sejam sempre as primeiras vítimas das crises, normal que uma guerra distante desapareça do nosso campo de atenção, normal que alguém morra sozinho. Mas o que acontece quando uma sociedade aprende a chamar de normal aquilo que deveria provocar escândalo? Talvez Francisco começasse pelo gesto que sempre o caracterizou: aproximar-se.

Essa aproximação também nos obriga a pensar nas pessoas que morrem enquanto tentam defender outras vidas. Profissionais de saúde em zonas de conflito, jornalistas, defensores de direitos humanos, lideranças comunitárias, ativistas e tantas outras pessoas podem colocar a própria existência em risco para proteger outras pessoas. Não há necessidade de transformar essas mortes em espetáculo heroico. A morte de quem luta pela vida continua sendo uma tragédia. Mas ela revela uma pergunta que não podemos ignorar: que tipo de mundo produz situações em que proteger a vida pode custar a própria vida?

Francisco provavelmente não responderia com uma teoria. Responderia com um corpo. Seu corpo diante do leproso, diante do pobre, diante da natureza e diante da doença é parte de uma espiritualidade que não aceita pensar o sofrimento apenas à distância. Ele jejua, caminha, adoece, abraça, beija, canta, sofre e, no fim, pede perdão ao próprio corpo. Há uma espécie de reconciliação final com aquilo que passou a vida tentando disciplinar. Isso também é profundamente atual, porque vivemos numa cultura que transforma o corpo em produto, imagem, desempenho e mercadoria. Francisco termina sua vida lembrando que o corpo não é propriedade absoluta. Ele envelhece, adoece, sofre e finalmente retorna à terra.

“Deixem-me nu sobre a terra nua.” Talvez essa seja uma das imagens mais radicais contra a fantasia contemporânea de controle. Podemos prolongar a vida, mas não abolir a morte; podemos esconder a velhice, mas não impedir o envelhecimento; podemos criar medicamentos, mas não transformar o corpo em máquina eterna; podemos produzir entretenimento infinito, mas não escapar do silêncio. Podemos construir muros, acumular riquezas e desenvolver tecnologias cada vez mais sofisticadas, mas continuamos submetidos à mesma fragilidade fundamental de todos os seres vivos. A morte continua sendo nossa irmã, mesmo quando fingimos que ela não existe.

E talvez chamá-la assim seja menos uma celebração da morte do que uma recusa em viver aterrorizado por ela. Francisco não parece dizer que devemos desejar morrer. Ele parece dizer que precisamos aprender a viver sabendo que vamos morrer. Há uma diferença enorme entre essas duas coisas. Aceitar a mortalidade não significa aceitar a injustiça. Reconhecer que todos morreremos não significa considerar aceitável a morte provocada pela fome, pela guerra, pelo abandono ou pela violência. Pelo contrário: justamente porque a vida é finita, ela se torna preciosa. Se temos pouco tempo, cada vida importa; se o corpo é vulnerável, o cuidado deixa de ser luxo e se torna obrigação; se todos somos criaturas, ninguém deveria ser tratado como descartável.

Talvez seja esse o ponto em que Francisco deixa de ser apenas uma figura medieval e passa a nos interpelar diretamente. Não precisamos reproduzir sua época, suas roupas ou suas práticas de penitência. Precisamos recuperar sua capacidade de olhar. Olhar para aquilo que preferimos não ver, para o pobre antes que ele vire estatística, para o doente antes que ele vire diagnóstico, para a guerra antes que ela vire entretenimento, para a natureza antes que ela vire mercadoria, para o corpo antes que ele vire apenas instrumento de produtividade e para a morte antes que ela chegue ao nosso próprio leito. A grande provocação de Francisco talvez seja justamente esta: uma sociedade que não consegue olhar para a morte dificilmente consegue olhar de verdade para a vida.

Ele não venceu a morte. Não poderia. Fez algo mais humano: reconciliou-se com o fato de que era mortal. E talvez nós precisemos fazer um movimento diferente daquele que realizamos todos os dias: em vez de correr imediatamente para a próxima distração, permanecer alguns instantes diante daquilo que dói; em vez de transformar toda tragédia em número, perguntar pelo nome; em vez de consumir imagens de sofrimento, perguntar o que elas exigem de nós; em vez de simplesmente lamentar os mortos, perguntar que mundo foi capaz de produzir aquela morte.

Francisco chamou a morte de irmã porque havia aprendido, ao longo da vida, que nenhuma existência é verdadeiramente humana quando se constrói afastando tudo aquilo que nos lembra nossa fragilidade. Talvez seja isso que ainda podemos aprender com ele. A morte não precisa ser procurada, mas precisa ser encarada. E quando finalmente conseguimos encará-la, talvez descubramos que não precisamos aprender a morrer, mas a viver sabendo que a vida é finita. Talvez seja preciso olhar para a morte não para aprender a morrer, mas para finalmente descobrir como queremos viver.

fonte: https://cffb.org.br/o-que-francisco-de-assis-pode-nos-ensinar-sobre-a-morte/

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