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Gerrit van Honthorst, Infância de Cristo, 1620, Museu estatal Hermitage, São Petersburgo
Maria Milvia Morciano – Cidade do Vaticano
As fontes dos Evangelhos descrevem a profissão de José com uma única palavra. No Evangelho de Marcos (6,3), Jesus é chamado de “o tektōn“, enquanto no Evangelho segundo Mateus (13,55) ele é “o filho do tektōn“. O termo grego τέκτων, traduzido na tradição latina como faber, refere-se a um contexto mais amplo do que a ideia atual de um carpinteiro: indica um artesão da construção, capaz de trabalhar com diversos materiais e intervir na construção de estruturas. A palavra mantém uma certa abertura, inserindo José num contexto de trabalho concreto, não rigidamente especializado. Já em 155 d.C., Justino, em seu Diálogo com Trifão, recorda que Jesus fazia arados e cangas, objetos ligados à terra e ao trabalho, sinal de um artesanato concreto que o termo conserva desde as primeiras fontes cristãs.
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O contexto da Galileia do primeiro século torna ainda mais preciso esse perfil. Em uma região onde a madeira para construção era limitada e a construção dependia em grande parte da pedra local, o tektōn estava associado ao canteiro de obras, à transformação do espaço habitacional e à manutenção das necessidades diárias. Isso representa uma figura imersa no trabalho, com habilidades práticas e adaptabilidade aos materiais disponíveis, longe de uma definição redutiva e excessivamente especializada. Um elemento sutil, mas significativo, também aparece nesse contexto: no Evangelho de Lucas (2,24), a oferta de duas pombas no Templo coloca a família numa condição modesta, como exigido pela lei bíblica, sem que isso esgote a complexidade de seu perfil, que permanece ligado ao trabalho qualificado e reconhecido.
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Partindo desse fato essencial, a tradição dá um passo decisivo. A palavra ampla das fontes se estreita progressivamente: o tektōn se torna carpinteiro, o construir se concentra na madeira, e precisamente essa concentração abre um espaço para a interpretação que transcende os dados originais sem contradizê-los. A madeira, material do trabalho cotidiano, torna-se o ponto de onde se vislumbra, em filigrana, a madeira da cruz, segundo uma continuidade que pertence não à narrativa evangélica, mas à sua interpretação.
fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-05/sao-jose-operario-marceneiro-evangelhos-arte.html