![]()
Por Padre Guy Bognon*
O Dia Mundial de Oração pelas Vocações, instituído pelo Papa Paulo VI e celebrado oficialmente pela primeira vez no domingo, 12 de abril de 1964, é celebrado este ano em 26 de abril, IV Domingo da Páscoa, conhecido como “Domingo do Bom Pastor”.
Este dia especial de oração pelas vocações tem uma ligação particular e muito próxima com a Pontifícia Sociedade de São Pedro Apóstolo, que se dedica exclusivamente às vocações sacerdotais e religiosas nos territórios sob a jurisdição do Dicastério para a Evangelização, Seção para a Primeira Evangelização e as Novas Igrejas Particulares.
1. O Dia Mundial de Oração pelas Vocações: o que é?
Como muitas palavras que são esvaziadas de seu significado original para tranquilizar as consciências, o termo “vocação” é cada vez mais compreendido apenas em seu sentido genérico de inclinação, impulso irresistível ou particular que um indivíduo sente em relação a uma profissão, um tipo de atividade ou um estado de vida.
Como resultado, há uma crescente tendência de fazer deste dia um Dia de Oração por todos os estados de vida, por todos os tipos de vocação.
Mas se retornarmos ao contexto em que nasceu esta iniciativa do Papa Paulo VI, fica claro que não se tratava precisamente de rezar para que as pessoas sentissem ou abraçassem a vocação de historiador, romancista, empresário ou pintor, ou que muitos jovens escolhessem a vida matrimonial para se tornarem esposas e maridos, mães e pais na sociedade, já que não havia escassez nessa área.
Embora o termo “Vocação” possa assumir esses significados, ao falar do Dia de Oração pelas Vocações, a Igreja entende a expressão em seu sentido estrito como o movimento interior pelo qual o ser humano se sente chamado por Deus e destinado à vida consagrada, sacerdotal e religiosa. O objetivo deste Dia era, portanto, antes de tudo, rezar para que muitas pessoas, especialmente os jovens, decidissem se comprometer a se tornarem sacerdotes, religiosos e religiosas, para proclamar Cristo ao mundo com toda a sua vida.
De fato, por ocasião do primeiro Dia de Oração pelas Vocações, a primeira mensagem do Papa, no sábado, 11 de abril de 1964, começou com estas palavras que ecoam o convite de Cristo: “Rogai ao Senhor da Seara que envie trabalhadores” para a sua Igreja (cf. Mt 9,38). E a razão por trás dessa exortação era clara: “Ao contemplarmos com ansiedade a imensidão dos campos verdes que, em todo o mundo, aguardam mãos sacerdotais, esta sincera invocação brota da alma ao Senhor, em conformidade com a recomendação de Cristo.”
![]()
Este convite do Papa, que repropõe as próprias palavras de Cristo, surgiu de uma constatação angustiante: a falta de pastores e de almas totalmente e energicamente dedicadas às numerosas necessidades pastorais da missão evangelizadora. É precisamente por essa razão que, naquela primeira mensagem, aquele dia foi designado o “Dia Mundial de Oração pelas Vocações Sacerdotais e Religiosas”.
Este convite à oração é dirigido a todos os membros do Povo de Deus, e a oração a ser recitada é em favor de todos os membros do Povo de Deus, para que cada um, segundo as próprias possibilidades e a a própria função, possa contribuir para o nascimento e florescimento das vocações sacerdotais e religiosas. (…)
A oração à qual todo o Povo de Deus é especialmente convidado no Domingo do Bom Pastor é chamada a continuar nas devoções diárias ou ordinárias, uma vez que em todo o lado e a cada momento se sente a necessidade de pastores de uma forma sempre nova. Estas orações e devoções nunca deixam de dar frutos.
Ao promover a formação do clero local por meio do apoio aos seminários diocesanos e interdiocesanos e às casas de formação religiosa nos territórios de missão, a Pontifícia Sociedade de São Pedro Apóstolo observa um aumento anual no número de seminaristas e noviços que decidem seguir a vida sacerdotal e religiosa.
Considerando, por exemplo, os dados do ano letivo de 2023-2024 (778 seminários para 82.859 seminaristas) e os do ano letivo de 2024-2025 (801 seminários para 88.156 seminaristas), a diferença é de 23 seminários e 5.297 seminaristas.
Não faltam explicações para tentar justificar o aumento anual no número de seminários e seminaristas.
De um modo geral, e sob a perspectiva da fé, pode-se dizer que o aumento no número de vocações sacerdotais e religiosas é um sinal tangível de que o Senhor atende às orações do seu povo, que clama a Ele por suas necessidades, cumprindo, ao mesmo tempo, a sua parte de responsabilidade. De fato, como São João Paulo II tão acertadamente afirmou na Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis, “o dom de Deus não anula a liberdade do homem, antes a suscita, desenvolve e exige. Por este motivo, a confiança total na incondicionada fidelidade de Deus à Sua promessa está ligada na Igreja à grave responsabilidade de colaborar com a acção de Deus que chama, de contribuir para criar e manter as condições nas quais a boa semente , semeada pelo Senhor, possa criar raízes e dar frutos abundantes.”. Essas condições, em certa medida, provavelmente constituem o terreno fértil que fomenta vocações sacerdotais e religiosas em alguns países onde a lógica humana menos espera isso.
– Segundo relatos de formadores nas casas de formação, a origem dos jovens que chegam aos seminários é frequentemente modesta, provenientes de famílias simples e de condições econômicas humildes. Alguns desses jovens vivenciam a pobreza, tornando-se sensíveis ao sofrimento dos necessitados, dos doentes, dos sem voz, dos abandonados, dos humilhados, e sentindo profundamente em si mesmos o chamado para dedicar suas vidas a servir aqueles para quem ninguém mais tem tempo. Tendo experimentado a dor de situações difíceis, eles adquiriram a capacidade de silêncio, reflexão, cultura pessoal, vida espiritual e oração. Estão mais dispostos a ouvir o chamado discreto e gentil de Deus que os convida a estar disponíveis.
– Os ambientes onde abundam vocações são lugares onde a fé é vivida fervorosamente. Para haver sacerdotes ou pessoas consagradas, é preciso, antes de tudo, que sejam cristãos. Essas numerosas vocações são fruto da vitalidade de uma fé vivida com alegria, sem complexos, sem falsa vergonha; através da prática regular e entusiástica dos sacramentos do batismo, da comunhão, da confirmação, da reconciliação e do matrimônio, segundo as normas da Igreja.
– As vocações provêm de ambientes onde os ensinamentos da Igreja Católica são seguidos sem seleção, retendo-se apenas o que agrada e tranquiliza, rejeitando-se com facilidade e sem escrúpulos o que é considerado difícil, árduo ou ultrapassado.
– São lugares onde agentes pastorais, sacerdotes, religiosos e religiosas, e até mesmo fiéis leigos, comunicam-se facilmente com os jovens através de diversos projetos pastorais e de uma catequese rigorosa; lugares onde os jovens têm a certeza de que sua experiência na Igreja não limita sua liberdade, mas a enriquece e contribui para sua plena realização.
— Trata-se de paróquias ou dioceses onde a pastoral vocacional, sem excessivas complicações intelectuais e abstratas, é estruturada e organizada na simplicidade das realidades locais para acompanhar assiduamente os jovens na busca da vontade de Deus para suas vidas, com rigor e amor. Isso evidencia que, mesmo nesses países de missão, onde as vocações são geralmente numerosas, observa-se seu declínio ou inexistência em paróquias onde os párocos demonstram pouca preocupação com os jovens e têm dificuldades para implementar uma boa pastoral vocacional.
— Por fim, nota-se que os locais onde as vocações sacerdotais e religiosas estão aumentando significativamente são os territórios e dioceses onde ainda existem seminários menores. Seu objetivo é “auxiliar o amadurecimento humano e cristão dos adolescentes que demonstram os primeiros sinais de vocação ao sacerdócio ministerial, a fim de fomentar neles uma liberdade interior própria da idade, permitindo-lhes corresponder ao plano de Deus para suas vidas” (Ratio Fundamentalis Istitutionis Sacerdotalis 2016, n. 18).
Segundo os testemunhos dos Reitores, estes Seminários Menores são a principal fonte de candidatos que ingressam nos Seminários Preparatórios e nos Seminários Maiores, bem como nos Noviciados e em outras casas de formação religiosa.
Diante deste aumento de vocações, que exige a criação de novos seminários, a Pontifícia Fraternidade São Pedro Apóstolo sente-se mais diretamente envolvida em seu papel e busca constantemente maneiras de contribuir para a formação desses jovens que sentem essa vocação particular para a vida consagrada.
![]()
A formação de um jovem que sente o chamado divino não é apenas responsabilidade de sua família, muito menos de sua paróquia de origem, mas de toda a Igreja universal. Consequentemente, os seminários e as casas de formação religiosa necessitam da generosa cooperação de todos os fiéis para proporcionar aos candidatos a formação adequada e necessária que os capacite a se tornarem pastores e missionários da Igreja. (…)
Hoje, sem a contribuição da POSPA, que se beneficia dos fundos disponibilizados pelas Direções Nacionais das Pontifícias Obras Missionárias, muitos seminários seriam obrigados a fechar as portas, a criação de novos seminários, tão urgentemente necessários, seria difícil, senão impossível, e muitos jovens capazes de se tornarem bons sacerdotes seriam forçados a escolher outro caminho na vida.
Em sua Carta Apostólica por ocasião do centenário da POSPA, em 1989, o Papa São João Paulo II escreve: “O crescimento do clero autóctone pode ser prejudicado pela insuficiência de recursos disponíveis. Segundo o testemunho de numerosos bispos de países de missão, ainda hoje mais de uma diocese pode ver suas esperanças em um clero nativo frustradas sem o apoio da Fraternidade São Pedro Apóstolo. Após várias décadas, essas palavras do Papa permanecem mais relevantes do que nunca.”
À luz dos dados mais recentes disponíveis, para o ano letivo de 2024-2025, a POSPA concedeu bolsas ordinárias a:
– 449 Seminários Menores, com um total de 53.405 seminaristas menores, dos quais 84% estão na África e 16% na Ásia.
– 141 Seminários Propedêuticos, com um total de 6.575 seminaristas preparatórios, dos quais 77% estão na África, 17% na Ásia, 2% na América e 1% em outros países. Oceania.
– 211 Seminários Maiores com um total de 23.312 seminaristas maiores, dos quais 68% estão na África, 21% na Ásia, 1% nas Américas e 1% na Oceania.
Além das verbas ordinárias para o funcionamento diário dos Seminários, também são concedidas verbas extraordinárias, destinadas a projetos de construção ou grandes intervenções materiais necessárias à vida do Seminário. Além disso, para garantir a qualidade da formação dos seminaristas, são promovidas e apoiadas sessões de formação permanente para formadores de seminaristas em diversos países. Em consonância com esse objetivo, também são disponibilizadas bolsas de estudo em universidades católicas para a formação de sacerdotes designados pelas Conferências Episcopais para lecionar e formar nos Seminários. Essas bolsas também são estendidas a religiosos e religiosas de congregações indígenas de direito diocesano, para a formação de formadores em seus noviciados.
Além dos seminários onde os sacerdotes diocesanos são formados, a Fraternidade São Pedro Apóstolo também serve à comunidade religiosa. Os noviços das Congregações presentes nos territórios de missão enviam uma modesta contribuição anual, a título de Subsídio Ordinário, aos noviciados das congregações religiosas de direito diocesano e pontifício. Segundo os dados mais recentes, existem 1.200 noviciados com um total de 7.845 noviços, dos quais 2.801 são rapazes e 5.044 são raparigas. As vocações religiosas também são numerosas, crescendo sobretudo em África e na Ásia.
Cabe salientar que, apesar do aumento das vocações nos territórios de missão, o campo a colher continua a expandir-se e a necessidade de obreiros é cada vez mais premente, sobretudo tendo em conta as Igrejas que mais precisam deles neste momento em que a missão chama a todos os lados. Por vocação, cada Igreja local é chamada a considerar e a participar nas necessidades da Igreja universal e, portanto, de todas as outras Igrejas, através da oração e da partilha. Seja qual for a necessidade ou a urgência da missão no seu próprio território, cada Igreja deve poder interessar-se pelas experiências de outras Igrejas e partilhar com elas os seus recursos para a expansão do Corpo. De Cristo até os confins da terra e até o fim dos tempos.
*Sacerdote da Fraternidade dos Sacerdotes de São Sulpício, Secretário-Geral da Pontifícia Sociedade de São Pedro Apóstolo (POSPA)
(AGÊNCIA FIDES)
fonte: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-04/africa-asia-aumento-vocacoes-nutridas-fe-povo-deus.html