
“Também nós, que entregamos a vida ao Senhor, precisamos nos perguntar onde está o nosso coração.” Estas foram as palavras proferidas pelo Papa Leão XIV ao clero uruguaio na homilia das vésperas na Catedral da Imaculada Conceição e dos Santos Filipe e Tiago, em Montevidéu. Leão XIV convidou os consagrados a se voltarem para Jesus Cristo, a entregarem suas vidas a Ele.
Mariangela Jaguraba – Vatican News
O Leão XIV presidiu, nesta sexta-feira (06/11), a celebração das vésperas com os bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e seminaristas na Catedral da Imaculada Conceição e dos Santos Filipe e Tiago, em Montevidéu, no âmbito de sua viagem apostólica internacional à América Latina.
O Papa iniciou sua homilia, recordando que foi nesta catedral que o “Pai da Pátria” uruguaia, José Gervasio Artigas, recebeu o Batismo. “Foi ali que, para ele, começou uma nova vida como filho de Deus. Essa mesma graça está na origem da nossa própria história. Pelo Batismo, Cristo tornou-nos participantes da sua vida e convida-nos a crescer à sua semelhança, até que aprendamos a olhar, a escutar e a amar como Ele”, ressaltou. De acordo com Leão XIV, o coração humano vai aos poucos “assumindo a forma daquilo que ama e no qual deposita a sua confiança”.

(VATICAN MEDIA)
“Também nós, que entregamos a vida ao Senhor, precisamos de nos perguntar onde está o nosso coração. Por vezes, ele pode ficar preso a uma obra que consideramos nossa, ao reconhecimento que recebemos ou à tranquilidade de ter tudo sob controle. E, sem nos apercebermos, começamos a ver os outros a partir de uma perspectiva com base nessas preocupações. A fidelidade à nossa vocação exige que voltemos, uma e outra vez, a Jesus Cristo, deixando que Ele seja o nosso tesouro, Aquele a quem queremos assemelhar-nos.”
Segundo o Papa, o amor de Cristo quer chegar a tantas pessoas. “Quantas pessoas chegaram ao confessionário com receio e saíram radiantes pelo perdão recebido!” O mesmo acontece com as mãos daqueles “que tantas vezes elevaram o Corpo de Cristo, ajudaram os doentes, prepararam uma refeição ou ampararam quem já não conseguia caminhar. Essas mãos que, através do carisma de suas congregações, fizeram chegar a tantas pessoas a ternura de Deus. Algumas delas trazem as marcas da idade e do trabalho. Como são belas as mãos que envelheceram fazendo o bem!“
De acordo com Leão XIV, “a semelhança com Cristo amadurece também nas dificuldades, ou seja, quando o trabalho parece infrutífero, as forças diminuem ou quando é preciso recomeçar. A constância vai deixando uma marca. Com o passar dos anos, o olhar pode tornar-se mais misericordioso, as mãos mais dispostas a servir e as palavras mais capazes de consolar“.
A este propósito, citou como exemplo o Beato Jacinto Vera, primeiro bispo uruguaio, cujo corpo repousa na Catedral da Imaculada Conceição e dos Santos Filipe e Tiago.
“Neste túmulo, aguardam a ressurreição aqueles pés que percorreram os caminhos do Uruguai para levar o Evangelho ao seu povo; as mãos que abençoaram, socorreram os pobres e administraram os Sacramentos; os ouvidos que acolheram incontáveis confidências e os olhos que se detiveram naqueles que precisavam de ajuda. A relação com Deus tinha moldado o seu rosto, os seus gestos, a sua maneira de estar com os outros. Quem se aproximava dele encontrava algo da bondade de Cristo, mesmo antes de ouvir uma única palavra da sua pregação.”
De acordo com o Papa, um dos segredos da evangelização é “assemelhar-nos Àquele que anunciamos“. “Nesta terra, onde muitos dos nossos contemporâneos mal conhecem Jesus Cristo e tantos jovens cresceram longe da vida da Igreja, este testemunho tem uma força particular”, sublinhou. “Que, ao verem como olhamos para os outros, como escutamos ou como nos aproximamos de quem sofre, isso possa suscitar neles a pergunta: de onde nasce este amor? E que, quando lhes falarmos de Jesus, descubram o mesmo Senhor cuja bondade começaram a experimentar através de nós, apesar da nossa pobreza“, destacou.

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“Este desejo de que outros conheçam e sigam Jesus manifestou-se também na oração pelas vocações”, disse Leão XIV, ressaltando que “quando, em 2024, o seminário interdiocesano não recebeu novos candidatos, muitos fiéis começaram a reunir-se em momentos de oração e jejum para pedir ao Senhor que enviasse trabalhadores para a sua messe”.
A esse respeito, o Papa convidou os “bispos de todo o mundo a promoverem em suas dioceses jornadas de oração e jejum pelo aumento das vocações ao sacerdócio e à vida consagrada“.
“Que as paróquias, as famílias e as comunidades religiosas se unam nesta súplica. Que o exemplo desta terra inspire muitos outros a rezar com a mesma confiança!”
O Papa convidou também os seminaristas, noviços e noviças, a contemplar os que, antes deles, “percorreram o caminho da entrega: as suas mãos desgastadas, o seu amor perseverante, a sua forma de se relacionar com Jesus“. Aos que há muitos anos se dedicam ao ministério ou à vida consagrada, pediu que “voltem sempre ao essencial”, a guardar “o silêncio da oração, a escuta da Palavra, o encontro com Cristo na Eucaristia”.
Leão XIV concluiu, pedindo a Nossa Senhora dos Trinta e Três, Padroeira do Uruguai, “que nos ajude a manter o coração unido ao seu Filho”.