Do Eremitério “Le Celle” à Igreja de São Francisco, do Mosteiro das Clarissas ao Santuário de Santa Margarida: a cidade toscana celebrou os 800 anos da morte do Pobrezinho de Assis com um projeto que uniu espiritualidade, arte, caminhos e tradições locais.
Stefano Leszczynski – Vatican News
Um fio condutor atravessa oito séculos de história e liga Cortona, uma antiga cidade etrusca, com vista para o Vale Valdichiana, à figura de São Francisco de Assis. Trata-se de um elo que se encontra nas pedras de suas igrejas, no silêncio de seus conventos e ao longo dos caminhos, que levam às encostas do Monte Santo Egídio. Por ocasião do 800º aniversário da morte do Pobrezinho de Assis, que ocorreu em 3 de outubro de 1226, a cidade toscana redescobre esta herança através do projeto “Cortona franciscana”, um percurso cultural e espiritual, que envolve comunidades religiosas, instituições, escolas e profissionais locais.

A vista da prefeitura no centro histórico da cidade
“Cortona é um testemunho vivo da presença franciscana”, explica Rita Adreani, do Comitê promotor da iniciativa. O primeiro encontro remonta a 1211, quando Francisco chegou à cidade para fazer pregações, lançando as bases de uma presença destinada a perdurar nos séculos. Em 1225, juntaram-se aos primeiros frades uma comunidade de mulheres, inspiradas por Clara de Assis, que se tornaria a tradição das Clarissas de Cortona. A terceira grande figura é Santa Margarida de Cortona, que chegou de Laviano, em 1272, tornando-se a padroeira da cidade. Ela era conhecida como a “terceira pérola do franciscanismo”. Três experiências diferentes, unidas pela escolha da pobreza evangélica, a oração e o cuidado dos mais necessitados.

A Igreja de Santa Margarida em Cortona
Entre os lugares mais sugestivos destaca-se o Eremitério Le Celle, imerso em um desfiladeiro de bosque atravessado por uma torrente. Francisco esteve ali diversas vezes para meditar e rezar. Segundo a tradição, ele também permaneceu ali, em 1226, alguns meses antes da sua morte, como diz o Frei Mirko, que acompanha os visitantes ao coração da Eremitério: “Este lugar remoto e isolado o ajudou a entrar, realmente, em comunhão com Deus, um lugar que continua a dialogar com as preocupações contemporâneas: as pessoas vêm carregadas de muitas lutas e feridas. Aqui encontram consolo para suas vidas e suas almas” O convento, agora sob os cuidados dos frades Capuchinhos, representa um dos testemunhos mais autênticos de uma espiritualidade fundada na simplicidade e no encontro com a Criação.

O erememitério distinguindo, à esquerda, a cela de São Francisco
No centro histórico da localidade, a igreja de São Francisco, construída por Frei Elias, a partir de meados do século XIII, conserva preciosas relíquias atribuídas ao santo: seu saio, almofada fúnebre e um evangeliário. Os restos mortais de Frei Elias, figura fundamental na história inicial da Ordem, também descansam ali. Outra figura importante é o Beato Guido Vagnottelli, que, segundo a tradição, doou a Francisco o terreno, onde foi construído o Eremitério Le Celle. Seus restos mortais encontram-se na co-catedral. Este patrimônio espiritual é completado pelo mosteiro das Clarissas, onde ainda reside uma comunidade contemplativa, e o santuário de Santa Margarida.

As relíquias na Igreja de São Francisco
O objetivo do projeto é transformar esta memória em uma experiência acessível aos peregrinos, visitantes e novas gerações. São promovidos itinerários urbanos e suburbanos, visitas guiadas, encontros escolares e iniciativas culturais, como observa Adreani: “Não é preciso ser um grande caminhante, mas ter o desejo de se surpreender com a simplicidade dos lugares franciscanos”. “Cortona é rica destas memórias, que hoje constituem um centro de conferências e encontros sobre figuras que moldaram a história do franciscanismo”, explica Nicola Caldarone, presidente do Ministério do Patrimônio Cultural, Atividades e Turismo (MAEC) e consultor científico do projeto Franciscano Cortona: “São Francisco tem muito a dizer à sociedade atual, sobretudo em termos de frugalidade e moderação, tolerância e fraternidade”. Os valores franciscanos permeiam toda a história desta cidade toscana e seus artistas, como Gino Severini, autor da Via Sacra que atravessa os locais sagrados da cidade, a quem Cortona dedica uma exposição em cartaz até 1º de novembro.

A sede do Museu da Academia Etrusca e da cidade de Cortona
“Cortona é um tesouro de obras de arte”, ressalta a guia de turismo, Silvia Vecchini, que recorda o patrimônio deixado por Luca Signorelli, Pietro de Cortona e Gino Severini, autor da Via Sacra, que acompanha o itinerário até o santuário de Santa Margarida. No entanto, a espiritualidade franciscana também é permeada pela cultura da hospitalidade e tradições gastronômicas. O chef, Emiliano Rossi, da Taverna do Teatro, reinterpretou receitas antigas utilizando ingredientes locais, entre as quais o leitão “bêbado”, preparado com vinho tinto, ervas aromáticas e castanhas, numa releitura da culinária popular medieval. Trata-se de uma forma para redescobrir a relação entre a humanidade, a natureza e a comida, ciente de que a cultura franciscana continua a oferecer ensinamentos para o dia-a-dia. Eis o profundo significado de Cortona Franciscana: não apenas celebrar um aniversário, mas resgatar a relevância de uma mensagem de fraternidade, paz e defesa da Criação. Oitocentos anos após a sua morte, Francisco continua a falar por meio dos lugares que testemunham a sua passagem e das comunidades que mantêm vivo o seu testemunho.