Missão Franciscana do MT e MS

Rua 14 de Julho, 4213 - Bairro São Francisco - 79010-470 - Campo Grande, MS

Notícias › 28/03/2026

Ponto de Fra Massimo – março de 2026 Onde a compaixão constrói pontes

O aroma do incenso envolve você antes mesmo de cruzar a soleira. Nos templos budistas que visitei nos últimos meses na Ásia, monges com vestes cor de açafrão ou marrom recitam fórmulas ancestrais com uma concentração profunda. Lá fora, a vida flui entre mercados movimentados, scooters e arrozais. O budismo aqui não é uma escolha: é o ar que se respira, a linguagem com a qual um povo interpreta o mundo, sua dor e sua esperança há 2.500 anos.

No Camboja, na década de 1970, a Igreja foi literalmente dizimada. Bispos, padres, religiosos e leigos foram mortos ou dispersos, edifícios arrasados. Nada restou, exceto alguns cristãos dispersos. Contudo, caminhando pelas comunidades cambojanas de hoje, encontrei uma Igreja renascida com raízes surpreendentemente locais. Rostos khmer e descendentes vietnamitas animam as celebrações, catequistas locais lideram pequenas comunidades com uma fé renovada, jovens religiosas e frades realizam trabalhos educativos vitais com uma dedicação comovente. A vida é mais forte que a destruição.

Mas a questão crucial é: como podemos viver e proclamar o Evangelho onde uma visão de mundo tão antiga e coerente molda todos os aspectos da existência? O cristianismo aqui é percebido como algo estrangeiro, “ocidental”. Há uma espécie de impermeabilidade histórica que resiste aos métodos convencionais.
E eis a descoberta que me surpreendeu. O budismo abraça a compaixão como um valor central: karuṇā , como eles a chamam, a capacidade de sentir o sofrimento dos outros como se fosse o seu próprio. Quando os budistas veem os cristãos praticando concretamente essa mesma compaixão — entre os doentes, os pobres, as crianças abandonadas — algo lhes abre os olhos. 

Já conheci crianças órfãs, por exemplo, e algumas com autismo: acolhidas e cuidadas, elas encontram um lar e uma família conosco. Não se trata de um raciocínio teológico, mas sim de um reconhecimento. “Vocês vivem o que nós também buscamos.” Em Singapura e em outros lugares, vi como esse testemunho silencioso constrói pontes fortes, cria confiança e abre caminhos inesperados para a fé.
Francisco compreendeu isso: ele se aproximou do Sultão não com argumentos, mas com sua presença inabalável. Nosso carisma exige que estejamos presentes, como fermento evangélico, sem pressa, prontos para falar “quando o Senhor quiser”, em harmonia com todos, pacientemente ao longo de longos períodos de tempo, agindo como um “nós” e não como indivíduos. 

Além disso, a visão taoísta que permeia esta parte do mundo também impulsiona nossos cristãos em direção a essa sabedoria. Não se trata de resignação: é a sabedoria da semente que age no silêncio da terra.
A Ásia budista nos oferece uma lição preciosa e surpreendente neste Ano Francisco: não somos chamados a convencer, mas a viver o Evangelho com tamanha intensidade que sua luz se torne visível. O karuṇā budista e o ágape cristão se observam, se reconhecem, se questionam. Nesse espaço, abre-se um diálogo que nenhum texto teológico poderia gerar.

Continuemos a semear. O Senhor fará crescer, nos tempos e das maneiras que Lhe agradam.

 

fonte: https://ofm.org/il-punto-di-fra-massimo-marzo-2026.html

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

Cadastre-se e receba nossas novidades

X