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Artigos › 23/11/2025

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo Semana da Consciência Negra

 

O Reinado de Cristo: Um Quilombo de Justiça e Amor

 

O Segundo Livro de Samuel apresenta a aliança entre Davi e o povo de Israel em Hebron, recordando que Jesus é o filho de Davi, o Messias e novo rei. Entretanto, Jesus não corresponde às expectativas dos judeus de sua época que, diante das marcas da opressão, do exílio, da dominação e do jugo do Império Romano, esperavam um messias rei e militar que, como o Rei Davi, libertaria o povo da opressão do Império, reuniria todo Israel e reconstruiria o Templo.

Ao contrário, Jesus se revela na pequenez e na humildade, concentrando seu ministério no serviço aos mais pobres e humildes, questionando as estruturas políticas e religiosas da época e convidando todos à conversão do coração. Além disso, ao chegar a Jerusalém, Jesus mostra que seu reinado não é o reinado dos homens, mas o reinado da lei de Deus, o reinado do amor. E fiel a esse reinado, ele segue até o fim!

Os discípulos se apavoram, o povo fica incrédulo e, nas falas e insultos dos soldados e dos chefes do povo, vê-se presente o escândalo da cruz. Aquele que iria salvar e libertar Israel está agora reduzido a farrapo humano, pregado em um infame madeiro. Contudo, por mais que o mundo não compreenda, aqui se manifesta o verdadeiro reinado de Cristo. Para escândalo dos poderosos, ele assume a cruz como trono. No lugar do cetro, porta o mais profundo esvaziamento e abandono e, como coroa, traz sobre a cabeça as nossas angústias e misérias mais profundas. É justamente aqui, na dor e no abandono, no profundo vazio onde a humanidade e a divindade se esvaem, que Cristo se faz Rei.

Só quem viveu e vive na carne a dor do abandono, da miséria e de todo tipo de desumanização e morte é que pode compreender em essência o mistério desse reinado. Nós éramos reis, rainhas, príncipes, princesas, guerreiros, ferreiros, artesãos, médicos, cientistas, arquitetos, lavradores e, entre tantas artes, viveres e fazeres, vivíamos nossa existência integrados com nosso chão, com nossa história, com nosso povo, com toda nossa cultura e nossa fé. Contudo, as estruturas do pecado, as garras do poder, fizeram tudo para nos desumanizar, reduzindo-nos muitas vezes ao farrapo da humanidade. Mas nunca deixamos de trazer no corpo, na mente e no coração uma centelha de vida que não pode ser escravizada, nem colonizada ou desumanizada, pois transcende as forças hostis do poder e da morte.

Mesmo em meio a dores, nos levantamos além da dor, pela fé e pelo amor, descobrimos uma terra nova e fizemos milagres de fé e vida neste vasto Brasil. Em nossos quilombos e comunidades, construímos novas Áfricas, onde a liberdade, a comunhão com a terra, a vida em comunidade, a coparticipação, a justiça e a paz, ainda que sob os limites de nossa humanidade, se instituíram como possibilidade de existência na resistência.

Isso, hoje, deve ser para nós esperança e verdade do Reino Novo. Cristo é o rei da liberdade, que conduz ao amor e rompe com toda forma de escravidão. Cristo, pela sua encarnação, nos aquilomba! Ao reconciliar consigo mesmo todas as criaturas, pelo sangue de sua cruz, Ele nos abre a porta do Paraíso do qual fomos expulsos e, resgatando-nos da dor, do vazio, do abandono, nos faz cotidianamente renascer para uma vida nova! Vida que está no porvir, mas que se faz realidade hoje: nas mãos unidas em luta e em prece, no braço que cultiva a terra, no olhar que ama e acolhe, no pão partilhado, no alcance de melhores condições de vida, na realização de um sonho, no resgate da identidade, na proteção de nossos territórios, dos nossos rios, campos, mares e montes, na vida e na humanidade que resiste e se afirma, mesmo quando a morte parece vencer.

Este é o reinado de Cristo, o reinado do povo que mesmo diminuído, se refaz grande e se ergue além da dor. Que, ao reinar em nossos corações, Cristo nos aquilombe e nos salve cada dia mais. Para que, por Cristo, com Cristo e em Cristo, possamos criar e desfrutar, hoje mesmo, do paraíso prometido, do novo céu e da nova terra, do Quilombo da justiça, do reino da igualdade, onde todos são irmãos, onde impera a paz, onde a comunhão se faz verdade, onde todos são um, independente da cor, raça, gênero e religião, onde nossa humanidade se encontra reintegrada com Deus, conosco mesmos e com os irmãos.

Que Maria, a Mãe, o seio fecundo que nos dá a vida, nos ensine a realizar hoje o que esperamos. Que ela nos dê força e que faça reinar em nossos corações a consciência de que somos filhos e filhas, amados e amadas por Deus. Que, plenamente humanos, reine em nosso coração a certeza de que esse Quilombo Novo, o reinado de Cristo, nenhuma força do mal e da morte pode vencer. Essa é a nossa esperança! Que unidos na caridade, possamos anunciar e fazer viva a nossa fé em meio a todos os nossos irmãos e irmãs.

Viva Cristo Rei!

Feliz semana e mês da Consciência Negra!

 

por: Frei Matheus Pereira Sanches, OFM

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