
Fé que atravessa o Brasil e caminha pelas ruas de Manaus
No Dia de Nossa Senhora Aparecida, celebrado nesta segunda-feira, 12 de outubro, romeiros de diferentes regiões do país se reuniram em missas, novenas e procissões. No Santuário Nacional, em Aparecida (SP), a programação marcou a grande festa da Padroeira do Brasil. Na Amazônia, em Manaus, a devoção tomou as ruas cerca de 350 mil pessoas participaram da procissão, segundo a estimativa divulgada pela organização.
Vívian Marler – Amazonas
A fé que se expressa em pedidos, agradecimentos e promessas atravessou o país no dia dedicado a Nossa Senhora Aparecida. Em Aparecida, no interior paulista, o Santuário Nacional realizou uma programação especial, com missas, consagração e procissão. Em Manaus, a celebração ganhou os contornos da realidade amazônica e reuniu devotos da capital e do interior no Santuário Arquidiocesano de Nossa Senhora Aparecida, no bairro Aparecida, que teve como tema “Com Maria, em comunidade, conhecer e praticar a Palavra!”.
Na capital amazonense, os festejos começaram em 2 de outubro e tiveram seu ponto alto na segunda-feira, dia 12. A estimativa da organização é que aproximadamente 350 mil fiéis tenham acompanhado a procissão pelas ruas da cidade, cantando e louvando a Padroeira do Brasil. Ao longo do dia, o Santuário acolheu devotos em celebrações e momentos de oração, mas a coordenação não conseguiu contabilizar o público total.
A movimentação já era intensa antes do amanhecer. A primeira missa do dia, celebrada às 3h pelo padre Luiz Marcolino, da Paróquia Nossa Senhora das Graças, reuniu cerca de 10 mil pessoas, entre o interior e a área externa do Santuário. Foi a primeira vez que a programação dos festejos começou com uma celebração nesse horário.
Vieram famílias de diferentes regiões de Manaus e também do interior do Amazonas. Para muitos, a ida ao Santuário era uma forma de agradecer por graças recebidas; para outros, um gesto de fé, o cumprimento de uma promessa ou a oportunidade de confiar à Mãe Aparecida uma preocupação que não cabe em palavras.

Fé que atravessa o Brasil e caminha pelas ruas de Manaus
Para o padre redentorista José Amarildo Luciano da Silva, pároco e reitor do Santuário, a imagem negra de Nossa Senhora Aparecida carrega uma mensagem de acolhimento e igualdade. “A imagem negra é um símbolo que nos ajuda a vencer diferenças e a superar desigualdades. É o retrato da mãe de todos, não apenas de alguns; uma mãe próxima, mãe de Jesus e também nossa”, afirma. Na Amazônia, acrescenta, a devoção à Padroeira tem um vínculo especial com a pesca e os rios, pois, a imagem foi encontrada nas águas, uma história que ressoa de modo particular para os povos da região.
A relação dos fiéis com o Santuário também se constrói no cotidiano. A paróquia tem mais de 80 anos, e o espaço foi reconhecido como santuário em 2007. “Há muito tempo dizemos que não se constrói um santuário: ele se reconhece. O santuário é lugar da manifestação de Deus. A Igreja reconheceu aqui um lugar especial dessa manifestação”, explicou o padre Amarildo.
Para o reitor, os festejos vão além da devoção, são também um tempo de evangelização e de anúncio da Palavra de Deus. O tema deste ano “Maria em comunidade: conhecer e praticar a Palavra” convidou os fiéis a transformar a escuta do Evangelho em vida comunitária.
Na noite de 11 para 12 de outubro, a Romaria Filhos de Maria percorreu cerca de 22 quilômetros, do bairro Cidade Nova até o Santuário, em uma caminhada de aproximadamente cinco horas. A tradição, que completa 15 anos, é uma das marcas da festa em Manaus. “Na romaria, as pessoas peregrinam e se cansam, recordando que a fé se faz no caminho. O cansaço indica a entrega. É assim que o fiel romeiro se sente totalmente confiado à graça de Deus”, diz o padre Amarildo.
A caminhada nasceu de uma promessa feita por Marquize Santos Montenegro, segundo o relato de um familiar. Diante do diagnóstico de câncer na laringe do irmão, ela prometeu agradecer a Nossa Senhora Aparecida se ele se recuperasse. A família conta que, após a cirurgia, exames posteriores não apontaram vestígios da doença. O que começou com um pequeno grupo de parentes se transformou, ao longo dos anos, em uma romaria que reuniu este ano pouco mais de mil devotos e contou com o apoio da comunidade.
Entre eles estava Patrícia, que participou pela primeira vez da caminhada. Ela contou que foi à romaria pedir pela recuperação do marido, que enfrenta o alcoolismo, e pela libertação do filho das drogas. “É a primeira vez que venho participar, mas venho pela fé e por Nossa Senhora. Se Deus quiser, serei abençoada”, disse.
Ao chegarem ao Santuário, os romeiros participaram da missa solene, por volta das 8h. A programação seguiu com celebrações voltadas às crianças, à juventude e às mães, além do Ofício de Nossa Senhora. No início da tarde, o Santuário recebeu centenas de mães e mulheres devotas da Mãe Aparecida. Em sua mensagem, o padre Amarildo agradeceu a presença das mulheres e destacou a importância delas na Igreja, na comunidade e na sociedade. Também chamou atenção para as situações de desrespeito e violência que as atingem e recordou que muitas pessoas aprenderam a rezar no colo da própria mãe. Ao apresentar Maria como exemplo de mulher e mãe, convidou os presentes a reconhecerem esse papel e concluiu pedindo a proteção de Deus para todas as mulheres e disse que “A Igreja Católica está viva com as mulheres na Amazônia”.
Entre as pessoas que participaram da maioria das celebrações em honra a Nossa Senhora Aparecida estava Claudia Plácido, moradora do bairro de Aparecida e integrante do grupo ‘Mães que Oram pelos Filhos’. Ela contou que recebeu o diagnóstico de câncer de mama aos 35 anos, quando seu filho tinha três. Durante o tratamento, que incluiu um ano de quimioterapia, diz ter encontrado força na devoção. “Eu fiquei muito debilitada e pensei que não fosse conseguir. Fui ao Santuário, me ajoelhei e pedi que Nossa Senhora intercedesse junto ao Pai pela minha cura. Prometi que, se ficasse curada, caminharia todos os anos na procissão, descalça e com a imagem de Nossa Senhora Aparecida”, relatou.
No primeiro ano, ainda sem condições físicas, Claudia permaneceu no Santuário rezando o terço. Há quatro anos, cumpre a promessa na procissão. Para ela, cada passo é uma forma de agradecer e renovar a esperança. “Nossa Senhora Aparecida é minha mãe. Ela foi e é a minha esperança e a minha fé”, afirmou.
Após a missa de encerramento da Padroeira, celebrada pelo cardeal arcebispo metropolitano de Manaus, Dom Leonardo Steiner, foi realizada uma procissão que percorreu ruas do centro da capital. Durante a celebração, o cardeal recordou que o título de Padroeira do Brasil foi concedido pelo papa e destacou a devoção de Maria aos pobres, aos pequenos, aos pescadores e aos necessitados. “Queridos irmãos e irmãs, agradecemos por termos uma Mãe, por ter o Brasil uma Padroeira. Essa Padroeira não depende de direitos políticos nem de decisões do Congresso Nacional. É uma declaração do papa”, afirmou.
Dom Leonardo também ressaltou que a missão de Maria conduz os fiéis a Cristo. “É a Jesus que nós seguimos; é a Jesus que ela nos leva; é a Jesus que ela nos aponta, Jesus, a razão da nossa vida”.
Ao final da procissão, o cardeal deu a bênção da sacada do Santuário e agradeceu a presença dos devotos. A festa também se expressou em gestos de solidariedade, os fiéis foram convidados a doar alimentos não perecíveis para famílias em situação de vulnerabilidade e levar flores em homenagem à Padroeira.
A programação festiva continua no dia 18 de outubro, com o Arraial da Padroeira, encontro comunitário com comidas típicas que marcará o encerramento do calendário deste ano.
fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-10/fe-atravessa-brasil-caminha-ruas-manaus.html